É difícil encontrar uma profissão que tenha fechado de maneira tão rápida o ciclo de fundação, encantamento, estabilização e queda. A Análise de Negócios, como conhecida hoje, foi definida a pouco mais de sete anos. Seu corpo de conhecimentos oficial, publicado pelo IIBA (Instituto Internacional de Análise de Negócios), ainda está na versão 2.0. Mas os analistas de negócios são cada vez mais desafiados a reverem suas responsabilidades, seu conjunto de conhecimentos, habilidades e sua posição nas empresas.
O ciclo de desenvolvimento da profissão foi acelerado não só pela dinâmica dos tempos modernos, mas principalmente pelo seu mau uso. Não foram poucas as empresas e organizações de TI que viram nos analistas de negócios um tipo de ponte entre estas e as demais áreas de negócios. Os analistas atacariam aquele que é o maior problema de TI: a comunicação com seus clientes e usuários.
A visão está correta. Equivocadas estão as organizações que fizeram dos analistas de negócios uma espécie de analista de suporte de luxo. Eles foram jogados no inferno cotidiano das operações de TI, na vã esperança de que sua especialização em conversas e requisitos representasse algum alívio. Em muitos casos o que ocorreu foi uma piora dos níveis de serviço, um aumento no tempo de atendimento aos usuários. Porque os analistas de negócios viraram um nó a mais na rede de comunicação. Nem simpatia nem todas as habilidades sociais do mundo aplacam a ira de usuários mal atendidos.
Os problemas das organizações de TI e de seus famigerados sistemas legados estão além do escopo deste artigo. Assim como sempre estiveram além das promessas da Análise de Negócios. É hora de rever o que foi prometido, aprender com os muitos erros e alguns acertos e recolocar desafios. Senão a profissão definhará e perderá seu sentido, a exemplo do que já ocorreu com a Análise de Organização & Métodos e com a própria Análise de Sistemas. Disciplinas que são, de certa forma, antecessoras da Análise de Negócios.
Analistas de negócios apoiam a descoberta e o desenvolvimento de soluções para problemas de negócios. Temos assim, em uma frase, a definição da profissão. Três verbos delimitam suas principais atribuições. Analistas apoiam outras áreas e pessoas, o que significa que suas atividades nunca são um fim em si mesmas. Apoiam a descoberta de soluções, um processo que envolve o correto entendimento de um problema e a exploração de alternativas de solução. Por fim, ajudam o desenvolvimento de soluções, entendendo que seu trabalho só está concluído quando o problema está definitivamente sanado.
Esta definição nunca direcionou os analistas de negócios para os departamentos de TI. O verdadeiro analista de negócios está apto a resolver problemas de qualquer natureza. Mas o fato é que, não fosse o impulso originado em TI, talvez não estivéssemos aqui, conversando sobre Análise de Negócios. Sejamos eternamente gratos. Mas, para o bem da profissão, não podemos ficar eternamente presos. Porque TI não tem o monopólio dos problemas que afetam as empresas. E muito menos o monopólio das soluções.
As organizações de TI continuarão se beneficiando da atuação dos analistas de negócios. Elas seguirão tendo os seus, mas em quantidade menor do que hoje observamos. Os que migrarem terão dois destinos. As próprias áreas de negócios, que ganharão assim uma interface para comunicação com seus eventuais construtores de soluções, sejam eles TI, marketing, contabilidade, produção etc. É importante observar que não há sobreposição com responsabilidades dos gerentes das áreas dado que o escopo de atuação de um analista é de cunho exclusivamente operacional. Os gerentes seguirão gerenciando, agora apoiados por Solucionadores de Problemas treinados e íntimos de seus objetivos e mazelas.
Um segundo destino possível são os chamados Escritórios de Gerenciamento de Projetos (PMO’s) ou mesmo escritórios de análise de negócios. É um desenho que pode se justificar em alguns casos, desde que este escritório não esteja subordinado à área de TI. Mas é preciso sempre se lembrar que profissionais que existem para derrubar muros – analistas de negócios e gerentes de projetos – dificilmente conseguirão justificar suas próprias paredes e biombos.
É difícil prever quando esse movimento migratório começará. Tão difícil quanto antever, há cerca de cinco anos, que a Análise de Negócios teria o espaço que tem hoje. O movimento parece ser tão natural quanto o primeiro. Por isso, é bom que os analistas de negócios estejam bem preparados.

Subjacentes aos processos de descoberta e desenvolvimento estão três áreas que podem se beneficiar com a atuação de analistas de negócios. Áreas que não se limitam aos projetos, mas usam estes como suas principais fontes. A primeira é a Gestão de Relacionamentos, porque os analistas de negócios funcionam como elo entre todas as partes interessadas de um projeto. Faz sentido que eles, além dos problemas e requisitos, cuidem também da qualidade das relações e do gerenciamento de expectativas.
Em seguida vem a Gestão de Conhecimentos, porque os analistas sabem que cada projeto é uma oportunidade única de aprendizado. Dada sua mobilidade e abrangência de atuação (eles podem treinar usuários, por exemplo), faz sentido que eles sejam cobrados pela qualidade do conhecimento gerado e difundido.
Por último, mas não menos importante, temos a Manutenção da Qualidade. Porque o tema precisa deixar de ser um requisito implícito dos empreendimentos empresariais – e virar um objetivo de todos. Os analistas de negócios podem desempenhar um papel crucial na busca por um alto padrão de qualidade nos projetos.
A Análise de Negócios é uma área rica e atraente porque lida com domínios cognitivos de maior complexidade. Tem jeito e cara de uma típica profissão do século XXI, que sabe combinar dinâmica e reflexão, pragmatismo e inovação. Ganharão os profissionais e as organizações que souberem extrair o melhor dela.
Nota
Não há nada de muito novo neste artigo, que é uma versão (adocicada?) de Repensando a Análise de Negócios, publicado no último 8 de março. Esta versão foi encomendada pela Assespro-MG e publicada em alguns veículos. Ganha espaço aqui porque o papo tem que continuar.
Olá Paulo,
Diante do conteúdo do post precisei refletir. Estamos iniciando a implantação de um Núcleo de Análise de Negócios e gestão por Processos. Inicialmente dois colaboradores, egressos da área de TI, em processo de formação, em especial, na disciplina de Modelagem de Negócios.
O Núcleo nasce na Coordenadoria de Tecnologias da Informação e da Comunicação e por lá poderá permanecer, do contrário, não seria aprovado. MOTIVO: conhecimento escasso (ou nenhum) sobre Análise de Negócios e Analista de Negócios em grande parte das organizações de pequeno e médio porte (minha opinião baseda apenas na intuição).
Recentemente iniciamos projetos pilotos de revisão de processos com o objetivo de atender demandas de clientes internos. Estruturamos a equipe de projeto com dois líderes, um representando a área de TI e outro a de Negócios. No time de Produto (área de Negócios) temos representantes dos usuários e um Analista de Negócios. No time de Desenvolvimento temos um Arquiteto de Informação e um Programador Analista (ambos focando na Engenharia de Requisitos). Quando necessário temos a presença do Arquiteto de Infraestrutura.
As reuniões são realizadas com o uso de dois projetores multimídia e a maioria dos participantes conectados ao Google Docs (documentos e planilhas). Analistas de Negócios e o pessoal que se preocupa com a Engenharia de Requisitos fazem a autoria colaborativa de um documento e de uma planilha. Os usuários-chave também acessam o documento e escrevem de forma colaborativa. Com o uso dos projetores todos conseguem ler e interferir, gerando qualidade no registro de informações e na comunicação.
Tudo isso para compartilhar com você que os excelentes referencias e as palestras que você apresenta sobre FAN, estão sendo aplicados e poderão garantir vida longa aos AN, mesmo permanecendo “prisioneiros” da área de TI.
Grande abraço e parabéns por este excelente post.
Olá Prof. Luiz Fernando,
Antes de mais nada, muito obrigado por compartilhar seu caso. Como eu escrevi, TI seguirá precisando de seus analistas de Negócios. Por razões óbvias. Dado seu diagnóstico, de que as áreas de Negócios não têm conhecimento sobre Análise de Negócios, algo será feito? há a intenção de promover uma disseminação da disciplina?
Em seu desenho, só estranhei o fato de os analistas de Negócios não cuidarem dos requisitos. são eles que, no desenho mais comum, cuidam da definição sobre o que precisa ser feito. Mas, eu sei, cada modelo tem seu contexto e suas particularidades.
Abraços!
Paulo Vasconcellos
Grande Paulo, bom dia!
Eu penso o mesmo que você em diversos aspectos; mas como o que importam mesmo são as diferenças, vamos a elas.
Hoje, o que eu vejo em algumas organizações (através de conversas com amigos da área) é que tem uma pequena tendência do cara ler o BABOK, BPM CBOK, PMBOK,. Kaiser BOCK (tá exagerei!) e já achar que pode sair mandando CV falando que é Analista de negócio. Eu penso que o AN tem que ir além da abordagem ‘generalista’ e ter sim ‘tech skills’ pra fazer essa ponte. A falta disso causa o que você falou que é mais um nó na comunicação.
Forte abraço e ‘keep posting’…
Grande Flavio, bom dia!
há imaturidade nas duas pontas, no candidato e na contratante. Se o candidato é honesto em relação à sua experiência (só li o BABoK®!), não vejo problema algum. Mas um ponto de seu depoimento é realmente preocupante: a ilusão de que a leitura de BoK’s seja suficiente, até para iniciantes. Como já escrevi por aqui, BoK’s podem detonar a formação de quem esteja começando. Particularmente o BABoK®, dadas suas muitas armadilhas.
Obrigado pela presença. Abraços!
Paulo Vasconcellos
O Flávio tocou num ponto que acredito ser um problema para qualquer AN: ser extremamente generalista.
Para mostrar valor, é preciso ser mais vertical, seja conhecendo muito bem uma área de negócio, seja sendo aquele AN mais técnico, que consegue se virar bem no vocabulário, entendimento e até validação de soluções técnicas.
De generalistas, já bastam os tradicionais GPs.
Pois é Jean,
E o mercado lá de fora parece saber disso há tempos. Quatro em cada cinco anúncios de vagas que vejo cita a necessidade de especialização em um ramo de atividades.
Uma empresa de prestação de serviços que queira tirar proveito disso deveria se preocupar em manter seus analistas trabalhando para um mesmo cliente ou perfil de clientes por um tempo. No geral, não há esse tipo de preocupação. Por parte das empresas e, por incrível que possa parecer, nem dos analistas. Uma pena.
Abraços! Obrigado pela participação.
Paulo Vasconcellos
Grande Paulo,
Vejo que continua com a mesma disposição que ano passado no evento Porto Alegre! Curiosa esta matéria e dá o que pensar…, como entendo que é um assunto atrelado a área de Análise de Negócios, gostaria de ressaltar uma das fragilidades desta área (vivi na pele), que é justamente por ser uma área de apoio e não área fim corre serio risco de ser a primeira área a sofrer baixas quando a empresa entra num período de crise financeira (vivenciei juntamente com a equipe enquanto estava no grupo Zatix), hoje estou em outro projeto. Talvez esta visão que a Análise de Negócios deverá seguir “agregada” a outra área de maior peso, tenha seus fundamentos, pois devemos refletir esta possibilidade! E com isto, podemos ter algumas posturas a este respeito, por exemplo, ou geremos mais valor agregado a AN para que cada vez mais ela se fortaleça no mercado, ou fortalecemos o caminho para a possível transmutação para outra área, mas mantendo os valores positivos que a AN gerou até este momento!
Muito bom saber que este espaço continua com boas discussões.
Um grande abraço, a todos.
Samuel Lima (SP)
Oi Samuel,
“Agregada” a uma área de maior peso ou espalhada e institucionalizada por toda a organização? Em minha visão, a Análise de Negócios merece o segundo cenário. Se vai conseguir são outros 500…
Abraços! Obrigado pela participação.
Paulo Vasconcellos