Crise de Identidade

No consultório do Dr. Malemá, psicólogo.

Malemá: Diga Antônio, o que lhe aflige?

Antônio: Não sei mais quem eu sou, doutor. Não sei o que faço, pra quem devo fazer, o que devo entregar. Não consigo explicar para meus parentes e amigos qual é a minha profissão. E as perguntas que eles fazem, doutor, céus… me deixam com mais dúvidas. Minha vida era mais simples quando eu era só analista-programador. Falava que programava computadores e todo mundo entendia. Agora não, inventaram que sou analista de negócios e minha vida virou de cabeça pra baixo.

Malemá: Analista de negócios?!?

Antônio: Ah não, doutor, o senhor também? Não começa não, por favor…

Malemá: Calma Antônio, tô aqui pra ajudar. Uma mudança de profissão não pode levar alguém ao ponto de procurar um psicólogo. Ainda mais quando nem tem plano de saúde. O que pode haver de tão terrível nesta função?

Antônio: Tudo doutor, tudo… Dizem que tenho importância estratégica – meu contracheque contradiz. Dizem que tenho que resolver problemas das partes interessadas – nome chique para usuários e clientes, entende? Então, tenho que atendê-los, como falaram em um cursinho de dois dias, com o máximo de habilidades sociais. Eu tento… mas eles vivem insatisfeitos. E mal educados, impacientes. Quando levo suas reclamações para quem tem de resolver de verdade, os que continuaram programadores (suspiro – inveja), levo mais porrada. Não adianta dizer que sou só o mensageiro. Sou detestado, doutor, por todos. (Suspiro – choro).

Malemá: Analista de negócios… espera, calma. Sabe, também sou chamado de analista. Não gosto, mas o nome explica o que faço. Eu analiso pessoas. Você analisa negócios. Não pode ser assim tão ruim.

Antônio: Você – posso usar você, né? – então, você não tá entendendo doutor. Você analisa dezenas ou centenas de insanos irados simultaneamente? Não, né? Então, mas eu faço isso todo dia!

Malemá: Não seria um problema específico da empresa onde trabalha? Já considerou a possibilidade de uma mudança?

Antônio: Participo de um grupo de discussão, doutor. Quase todo mundo reclama das mesmas coisas… É um mal generalizado…

Malemá: Então por que você não pede para voltar para sua antiga função?

Antônio: Ah, pegaria mal, né doutor? Ainda mais depois de eu ter defendido a criação da análise de negócios lá na firma. Dizia – como fui ingênuo – que resolveria quase todos os nossos problemas. Além disso, doutor, nunca gostei muito de programar não. Tenho um amigo que diz que meu código parece escrito pelo Joyce – saca, aquele do Ulisses?

Malemá: Entendo… Só não entendo como um profissão – ela é nova? – pode ser assim tão mal definida. Vocês têm uma representação, um órgão que os defina e defenda?

Antônio: Tem sim doutor, é o iba – escreve I-I-B-A. É ele que publica o babok – B-A-B-O-K -, nosso corpo de conhecimentos.

Malemá: E esse babok não diz qual é sua função e como você deve ser empregado?

Antônio: Ah, mais ou menos, doutor. Ele ajuda a gente a fazer entrevistas, coletar requisitos, esse tipo de coisa, entende?

Malemá: Não, mas não vem ao caso. Mas ele define sua função, não define? Eu entendo que o corpo de conhecimentos de uma profissão começa exatamente pela definição desta, certo?

Antônio: Peraí (ligando o laptop), tenho uma versão digital aqui. É que não consegui decorar ainda, sabe?

Malemá: (Paciente, inexpressivo, consulta o relógio).

Antônio: Só mais um segundinho… é que esse Windows demora pra butá.

Malemá: (Outra olhada no relógio, mesma cara. Quatro minutos e contando…)

Antônio: Pronto. O senhor quer a definição, né doutor? Ainda bem que saiu a versão em português. Peraí… tô achando… Achei! É a definição de análise de negócios, tá doutor? É a seguinte: “Conjunto de atividades e técnicas utilizadas para servir como ligação entre as partes interessadas no intuito de compreender a estrutura, políticas e operações de uma organização e para recomendar soluções que permitam que a organização alcance suas metas.”

Malemá: Essa é a definição?

Antônio: É doutor, bem completa, não acha?

Malemá: Você já tentou mostrar ela para sua mãe, sua esposa ou para um colega de outra área?

Antônio: Ah, nem tentei não doutor. Acho que eles não entenderiam nem metade desse papo…

Malemá: E você não acha que isso é um problema?

Antônio: Sabe doutor, não tinha pensado nisso não até ficar sabendo de uma nova versão do babok. Pelo que li num blog eles vão mudar essa definição.

Malemá: Opa…

Antônio: Acho que guardei aqui no nôte em algum lugar, peraí…

Malemá: (Relógio – faltam 5 minutos para encerrar a consulta).

Antônio: Sabia, tá aqui nos favoritos. Mudaram bem, viu doutor. Olha só:  “A prática de promover mudanças no contexto organizacional através da definição de necessidades e recomendação de soluções que entregam valor às partes interessadas.” Deu uma boa enxugada, né doutor?

Malemá: (Cara de quem entendeu tudo)

Antônio: Fala doutor, o que o senhor achou?

Malemá: Faz quanto tempo que esse negócio, digo, essa profissão existe?

Antônio: Ah, acho que já vai pra uns seis ou sete anos. Com o babok, né? Porque acho que ela é bem mais antiga…

Malemá: Entendo… E todo mundo trabalha com essas definições na boa?

Antônio: Sem problemas… é assim que vejo eles apresentarem nos seminários, cursos, palestras. Mas, qual é o problema doutor?

Malemá: Filho, o problema é que você não tem a menor ideia do que faz.

Antônio: Ah, mas isso eu sei. É por isso que estou aqui, oras…

Malemá: Sinto muito Antônio, mas acho que não vou conseguir resolver seu problema.

Antônio: Pô doutor, o senhor não é analista?

 

Nota

 

240 140 Paulo Vasconcellos
9 Comentários
  • Houve uma discussão tempos atrás na lista AN-BR sobre a proposta de disseminar as técnicas de Análise de negócio entre outros papéis na organização. Sai a função, mantenham-se as técnicas e resultados.

    não seria o caminho? Sei que você já se mostrou contrário a esta tipo de situação.

    Mas eu não tenho visto outro caminho. Estou trabalhando com as técnicas de Análise de negócio e disseminando na empresa mesmo sem a função estar definida.

    Isto até virou um bate papo que conduzi no IIBA no ano passado

    Parabéns pela linha crítica e realista.

    abs

    • Oi Jean,

      A Análise de Negócios, ao contrário de outras áreas, não tem nem nunca terá “jardins murados”. É salutar que profissionais de outras áreas conheçam AN e utilizem métodos e técnicas. Mas eles sempre verão e utilizarão pedacinhos. Afinal, têm outras atribuições. Sendo assim, quem cuida do todo?

      Insisto em uma questão que coloquei diversas vezes: se não existirem AN’s especialistas e dedicados, como podem a profissão e respectivo corpo de conhecimentos amadurecer? Isso vale tanto no contexto de uma única organização como no contexto global.

      Pelos depoimentos que testemunhei, acho que o IIBA é a única instituição que sabota seus próprios representados. Quando insiste em pregar “AN para todos” não percebe que dá um belo tiro no pé.

      Obrigado pela participação. Abraços!

      Paulo Vasconcellos

  • Oi Paulo,

    não é contra auto-regulação delegar para outra parte a formação/definição de ações necessárias ao equilíbrio?

    As técnicas são boas, mas a função específica não. A não ser que esteja inserida na parte, como um AN do próprio processo por exemplo. A situação parece ainda mais negativa se consideramos que a outra parte vem de outro organismo (TI e não Negócios).

    Por outro lado, a definição de fronteiras e princípios organizadores (percepção e organização todo-parte) me parece bem-vinda. Mas de qualquer maneira o organismo deveria ser gestão e não TI.

    O que acha? Pensamento sistêmico demais?

    • Oi Paulo,

      Entre a sua resposta, mais uma pergunta: Colocar para gestão poderia ser mais um muro. Pensando naquela proposta de comunidades de prática entre os processo, o AN como facilitador (essa questão todo/parte). O que acha?

      • Oi Igor,

        Vou passar vergonha. Vi suas questões na semana passada, logo que cheguei em Sampa para uma turma do {FAN}. Achei melhor estar com a cuca fresca para responder. Adiei para hoje.

        Li e reli suas questões e… bom, Será pedir demais que você as recoloque com outras palavras?

        Desde já agradeço sua compreensão. Forte abraço!

        Paulo Vasconcellos

        • Ficou estranho né? Sem problemas.

          Eu me questiono a delegação da prática AN para um papel fora da parte em questão.

          Quem seria ele para “promover mudanças no contexto organizacional através da definição de necessidades e recomendação de soluções que entregam valor às partes interessadas.” ?

          • Olá Igor,

            não sei se seus comentários ficaram “estranhos” ou se sou eu quem ando um tanto 6 volts ultimamente… A segunda hipótese é mais factível 🙂

            A questão é: o AN promove mudanças? Em meu ponto de vista, não!

            O AN apoia a descoberta e o desenvolvimento de soluções para problemas de Negócios. É uma função de apoio, nunca de execução. Por isso eu questiono a transferência de responsabilidades para outras áreas. É como dizer: vocês não precisam de ajuda, DIY!

            E, assim, o papo fica um tanto caduco, não?

            Perdão… tô lento mesmo.

            Obrigado pelo esclarecimento. Abraços!

            Paulo Vasconcellos

  • Gabriel Cavalcante

    Boa provocação, Paulo! Tenho bem essa impressão desde que comecei a estudar isso, há uns 2 anos (inclusive fazendo o FAN). não sei não se para algumas empresas a Análise de Negócios “em pedacinhos”, feita pelos vários envolvidos, já não resolveria… por outro lado também acho que a função existe e tem gerado bons frutos, só não tem padronização da nomenclatura e do próprio corpo de conhecimento, como você bem colocou…

    • Oi Gabriel,

      Se realizada “em pedacinhos” e por várias pessoas deixa de ser Análise de Negócios. Porque perde-se a visão do todo. Desconfio que, quando este enfoque funciona, ou se trata de problemas bem pequenos ou problemas que não têm nada a ver com o negócio (leia-se “manutenção de sistemas”). Nestes casos, ninguém precisa mesmo de Análise de Negócios.

      Ah, se nossos problemas fossem apenas uma questão de padronização (da nomenclatura e do BoK). Um dos pontos que eu destaquei é o fato do BABoK definir muito mal a função. Fato que tem criado confusões mil (além do desespero e desesperança do nosso querido Antônio).

      Muito obrigado pela participação. Abraços!

      Paulo Vasconcellos

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