Arquitetura de Negócios na Prática

A elaboração da oficina Arquitetura de Negócios não foi nada trivial. Em julho de 2012 iniciei uma série de artigos sobre o tema. No primeiro semestre do ano passado o trabalho foi apresentado na forma de palestras. Em dezembro a oficina foi lançada como um dos eventos pré-conferência do BA Brazil 2013. De lá pra cá, uma turma fechada, algumas revisões e mais uma experiência em turma aberta. A evolução anima. Mas o produto segue em fase beta¹. Porque os desafios não podem ser menosprezados.

O tema é relativamente novo. Para alguns, ainda estaria muito inconsistente, imaturo mesmo. Para outros, o papo seria filosófico demais. Ainda debatemos se Arquitetura de Negócios é uma coisa – conjunto de entregáveis (sic) – ou um processo. Nick Malik, da Microsoft, mostra neste artigo as diversas definições (falhas) de Arquitetura de Negócios. Discussão meio chata, você deve achar.

Porque, se negócios são organismos que tentam sobreviver em um ambiente insanamente dinâmico, qualquer fotografia de qualquer instante relevante se tornará obsoleta muito rapidamente. Ou, como coloca Thomas Stewart², “empresas são organismos vivos; documentos são um tipo de defunto“. A Arquitetura de Negócios será de fato útil se for percebida como uma caixa de ferramentas que nos ajuda a entender, descrever, examinar e explorar negócios.  Ou seja, ela faz parte de um ou mais processos antes de qualquer coisa.

Tive a sorte e a honra de contar com um arquiteto de verdade na última edição da oficina. Marcos Sungaila, da Savant Tecnologia, garantiu que não cometi nenhum deslize grave ao apresentar conceitos básicos da disciplina. Arquitetura de verdade? Sim, porque se vamos surrupiar o nome bonito, é de se esperar que respeitemos as bases daquele corpo de conhecimentos. Evitei riscos bobos ao citar, por exemplo, Lúcio Costa: “Arquitetura é antes de mais nada construção, concebida com o propósito primordial de organizar e ordenar o espaço para determinada finalidade e visando a determinada intenção“. Utilizo as peças destacadas em itálico para montar 3/4 da espinha dorsal da oficina. O último componente é aquele que diferencia a arquitetura de negócios das demais: a cultura.

A cultura organizacional foi um dos dois grandes desafios que enfrentei ao elaborar este evento. Afinal, como entender, descrever, examinar e explorar uma cultura? Pense no popular Business Model Canvas, por exemplo. Como representar ali qualquer aspecto ou dimensão da cultura de uma empresa? O outro grande desafio, confessado aqui, foi a representação do comportamento, da dinâmica de um negócio.
(Obs.: O próximo artigo mostrará uma possível solução para as duas questões.)

Casos de Uso

A arquitetura de negócios pode nos ajudar a resolver problemas pontuais. Por propor uma visão do todo, ao invés do raciocínio reducionista que caracteriza nossas ferramentas tradicionais, ela é particularmente indicada para questões complexas envolvendo diversos processos e unidades funcionais.

Mas é preciso dizer que a arquitetura de negócios só provará seu real valor se adotada como um processo cotidiano, como um jeito de pensar mais do que uma maneira de resolver problemas. Desta forma, evita-se o que parece ter acontecido com a análise de negócios. Esta, não só em terras tupiniquins, parece ter se tornado exclusivamente reativa: vive de apagar incêndios. A arquitetura, por outro lado, deve se mostrar pró-ativa e, porque não dizer, preventiva. Em um futuro artigo descreverei de forma mais detalhada as diferenças (reais e imaginárias) entre arquitetura e análise de negócios.

A oficina sugere a execução de quatorze exercícios. A última turma, mais heterogênea que as anteriores, aproveitou melhor as atividades práticas. As ferramentas foram bem testadas, indo além do que eu esperava. Mas a real vitória foi dar mais um passo no sentido de validar a coerência do conjunto proposto, da tal caixa de ferramentas.Jean Streleski, que participou da última edição, já experimentou a caixa em dois projetos reais. Ao lado, exemplos da utilização do Tabuleiro Sistemático e de um diagrama de efeitos (CLD – Causal Loop Diagram). A última imagem é do tabuleiro que é distribuído aos participantes.O FAN, que está prestes a completar sete anos, demorou cerca de cinco edições até encontrar seu formato ideal. Esta nova oficina parece caminhar no mesmo sentido¹. Mas o desafio do novo produto é consideravelmente maior. Quando o FAN nasceu o mercado já estava pronto. Agora estou ciente de que, mais do que a oficina, devo vender a Arquitetura de Negócios. Por isso o tema aparecerá com maior frequência aqui no finito.

Notas

  1. Um produto etiquetado como beta significa riscos para os participantes e também para o instrutor. Se você não curte tropeços, bugs e algumas correções em tempo real, é melhor manter distância desse tipo de oferta. Por outro lado, se você quer ser um dos primeiros a conversar e, principalmente, praticar o tema, considere-se convidado. A próxima turma está agendada para os dias 30 e 31 de maio.
  2. Em A Riqueza do Conhecimento (Campus, 2002).
512 512 Paulo Vasconcellos
6 Comentários
  • Grande PV!

    Cara você não sabe a alegria que me dá quando eu vejo no meu RSS um artigo seu. Muito bom saber que você está bem e “back to business”.

    Forte abraço!

    • Paulo Vasconcellos

      Grande Flavio!

      Agradeço a força. Espero que os novos temas o agradem.

      Abraços!

  • Jean Streleski

    Paulo,

    Após ter acompanhado a primeira palestra lá no início de 2013, fiquei bastante contente e satisfeito enquanto participante do conteúdo e de como a novidade foi apresentada.

    A primeira grande tentação que sofri foi de querer transformar o conceito todo em um conjunto de entregáveis ou até mesmo em reduzir o uso na função de um (inexistente) arquiteto de Negócios. Velha mania reducionista….

    Me anima demais ver a arquitetura de negócio como você colocou: uma forma de pensar Negócios. Anima ainda mais a possibilidade de ser usada como forma de prevenção ou até mesmo de previsão de problemas e oportunidades. Acho que este é o caminho….Espero estar arqui para ver isto enraizado em mais empresas do aquelas poucas citadas nos livros acadêmicos.

    Outro ponto importante que tenho sofrido na pele em meus experimentos é a tendência das pessoas de negócio encararem isto como pura filosofia ou acadêmico demais para o dia a dia. Mudei a abordagem. Vou na linha de quando utilizava Scrum sem nunca pregar a agilidade. Funcionava…e a empresa tinha em suas diretrizes que era contra os métodos ágeis….

    Terminei de ler o livro do Dee Hock, Nascimento da Era Caórdica, que conta a história da Visa. Imagino que conheça a obra. Em certo momento, no final do livro, ele elenca quatro fatores principais para a transformação das empresas baseado na abordagem que a Visa teve. Um dos fatores é de termos modelos para representar a situação dos Negócios e a mudança que se faz necessária. Inclusive ele cita a dificuldade em mostrar a grande rede de conexões das empresas mesmo em modelos de 3 dimensões. Fala sobre a cultura, que ele chama de dimensão espiritual e ética.

    Ou seja, a dificuldade que temos de utilizar o Tabuleiro para isto já é compartilhada por Dee Hock desde os tempos da Visa. Acho que o uso dos diagramas e do tabuleiro é um início do caminho. Como te disse por e-mail, meu primeiro experimento exigiu que eu colocasse elementos da Visão e Valores em post its abaixo do tabuleiro. Ajudou bastante, mas ainda não é suficiente. Seguirei experimentando…

    Espero que o papo continue aqui no Blog.

    Um abraço

    • Paulo Vasconcellos

      Oi Jean,

      Minha vida seria bem mais agitada se mais gente se dispusesse a conversar e experimentar como você. Os enganos e tropeços são normais. Aliás, são mais que desejáveis. De outra forma não haveria aprendizado. E não há razão para condenar o raciocínio reducionista. Como descobrimos em algumas conversas, uma ferramenta desse tipo lhe seria mais útil em determinada situação, lembra-se?

      não conheço o livro do Hock, e fiquei curioso. Dificuldades de representação, tanto de aspectos culturais quanto do movimento, são antigas. E tenho certeza de que minhas sugestões (melhor apresentadas no próximo artigo) estão erradas e incompletas. Resta torcer para que tenham utilidade em alguns contextos. E que sirvam como base para mais experiências e novas sugestões.

      No que depender de mim, o papo seguirá firme.

      Abraços! Obrigado pela participação.

      • Jean Streleski

        Tive a oportunidade de experimentar o uso dos diagramas de efeitos em duas situações: Uma com ele pronto e apenas apresentando para os envolvidos e outra desenhando em conjunto.

        Para o primeiro caso, aquilo que para mim era óbvio se mostrou difícil de explicar para um público C-Level. Houve uma (natural) resistência em ver aspectos do negócio destrinchados. não sei se pelo orgulho ferido e/ou pela dificuldade em entender o todo.

        Quando chamamos outro público, de média gerência para frente do quadro, a coisa deslanchou diferente. Era de se esperar. Saiu um trabalho feito à 4 mãos.

        Pra se pensar….

        • Paulo Vasconcellos

          Jean,

          você enfrentará a mesma situação em qualquer esforço de modelagem. Quando desenhamos em conjunto, estamos compartilhando modelos mentais. Todos participam da criação. Assim é mais fácil entender e aceitar o modelo. E temas ‘tabu’ ou controversos geram menor resistência.

          O que você experimentou no primeiro cenário descrito acima é o que enfrento aqui no finito toda vez que apresento um diagrama. Ainda sonho com a possibilidade de elaborar modelos em tempo real, com uma turma participando.

          Obrigado por compartilhar. Abraços!

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