O País do Jeitinho não Inova

Lá nos primórdios do Twitter eu escrevi: Chega com esse papo de povo criativo. Somos uma nação de MacGyvers que inventa gambiarras para sobreviver. Criatividade é outra coisa. De lá pra cá, um ou outro exemplo tentou contradizer meu tuíte. Mas foram poucos, raros e ralos. Na última quarta a Folha quase escondeu a notícia que mostra como Pindorama perdeu 32 posições no ranking que mede eficiência em inovação. O Brasil agora é o 39º colocado. China e Índia lideram a lista. Na nossa frente: Paraguai (6º), Estônia (8º) e Sri Lanka (10º), só para citar alguns exemplos. No índice geral, entre 141 países, ocupamos agora o 58º lugar. Perdemos no jeitinho, perdemos no futebol¹. O que deve preocupar é que podemos estar perdendo o futuro.

O estudo resumido pela Folha, o Global Innovation Index, é elaborado anualmente pelo Insead (instituto europeu de ensino) e pela WIPO (Organização Mundial de Propriedade Intelectual). O índice leva em conta sete critérios:

  • Instituição: Ambientes político, regulatório e de negócios;
  • Capital humano e pesquisa: Nível da educação, ensino superior e pesquisa e desenvolvimento;
  • Infraestrutura: Tecnologias da informação e de comunicações, infraestrutura geral e sustentabilidade ecológica;
  • Sofisticação de mercado: Crédito, investimento, transações e competição;
  • Sofisticação dos negócios: Trabalhadores do conhecimento, conexões inovadoras e absorção de conhecimento;
  • Conhecimento e tecnologia: Criação, impacto e difusão de conhecimento; e
  • Criatividade: Intangíveis (marcas e modelos de negócio), bens e serviços e criatividade on-line.

Nossa mídia endireitada e viciada, se preocupada com o tema, apontaria o dedão para o governo. A Folha, por exemplo, ao exibir o critério Infraestrutura cita “custo de energia”. Não é isso que é medido no estudo e sim a geração e consumo de energia per capita. No mesmo critério ela ignora o subitem “sustentabilidade ecológica”. Por essas e outras ela nem se preocupou em divulgar o link para acesso (gratuito) ao estudo: globalinnovationindex.org

É claro que o governo tem uma parcela de responsabilidade quando o assunto é inovação. Mas, a menos que estejamos em um lugar estranho como a Coréia do Norte, inovação é coisa da iniciativa privada. São as empresas as principais fontes de inovação. Simplesmente porque são ou deveriam ser as maiores interessadas. Não por acaso, os quatro últimos critérios da lista acima apontam exclusivamente para o mercado e os negócios.

Inovação está no discurso de todo mundo, até de empreendimentos de fundo de quintal. É chique – está na moda falar sobre inovação. Mas olha que coisa curiosa eu descobri no Google Trends. Pensei em um bom contraponto para Inovação (linha azul no gráfico ao lado). Tentei estabilidade. Para minha surpresa, ela é tão ou mais relevante que inovação nas buscas e notícias indexadas pelo Google. Veja a pesquisa original e repare, por exemplo, nas diferenças entre minha conservadora Minas Gerais e o inovador Rio Grande do Sul. Ou compare Caxias do Sul com Manaus. Dá o que pensar.

Berço

É lugar comum apontar para nosso sistema de ensino e dizer, está ali a origem de nossos problemas (independente de quais sejam). Isso é fácil. Como é fácil sugerir soluções simplistas do tipo “queremos uma lei que obrigue os governos a investir 10% do PIB na educação”. Se o problema fosse (só) a falta de grana, ficaríamos bonitos no pedaço em curtíssimo prazo. O buraco, incomensurável, é mais embaixo.

Vimos nos últimos dias alguns estudantes revoltados com a greve nas Universidades federais. Oito em cada dez entrevistados estavam preocupados com a liberação dos documentos necessários para efetivação em cargos que eles conseguiram em concursos públicos. Não é curioso que grande parcela da mesma classe que reclama do estado glutão planeje para si e seus filhos uma vida estável em trincheiras do governo? Não discuto vocações. Mas também não engulo contradições e hipocrisia.

Uma frase pinçada do ótimo A Rede Social, de David Fincher, ilustra bem o outro extremo, uma possibilidade raramente ensinada e motivada em terras tupiniquins: “Estudantes de Harvard acreditam que inventar um trabalho é melhor que encontrar um trabalho“. Não vejo uma única instituição brasileira gerando esse tipo de efeito colateral. Se pouco e mal semeamos, não são as secas e chuvas as culpadas por colheitas tão ruins.

Contatos recentes com Universidades daqui de minha terra me deram exemplos da cultura da estabilidade. Unidades de TI, inclusive uma encubadora de negócios, envolvidas com a obtenção de certificados MPS.br. Nada mais anti-inovação – nada pode ser mais quadrado. Inovação pede, entre outras coisas, instabilidade, diversidade e inconformismo. Infelizmente, não parece ser o que nossas escolas estão fomentando. Apesar de 48% dos estudantes, segundo pesquisa da Endeavor publicada no início deste ano, pensarem em ser empreendedores.

Creche

Quantas vezes ouvimos empresários ou seus representantes reclamando da falta de mão de obra qualificada no Brasil? Quantos desses chorões investem seriamente em capacitação? E quanto eles investem? Respectivamente: n vezes; 52%²; nem Google sabe.

Empresas sinceramente preocupadas com seu futuro não devem aguardar por mudanças no sistema de ensino. Porque, se elas acontecerem, terão reflexo apenas em médio ou longo prazos. Existe o atalho da importação de mão de obra especializada. Mas é ingênuo quem acredita que possa importar 800k, 200k ou mesmo 100k³ trabalhadores do conhecimento. Vão esperar cair do céu?

O Global Innovation Index mostra outro número que deveria nos (des)orientar. Entre todos os nossos empregos, apenas 19,3% correspondem a “vagas que exigem conhecimento intensivo” (menos da metade da média européia). Isso nos coloca na 72ª posição do ranking global. Temos tão pouco “trabalho do conhecimento” e ainda assim não somos capazes de formar o pessoal necessário? É Ultraje, continuamos inútil!

Apenas 40% dos nossos esforços em Pesquisa & Desenvolvimento são tocados pela iniciativa privada. Ela financia quase 44% dessas iniciativas torrando uma esmola de aproximadamente R$ 22 bilhões. Sim, esmola. As 500 maiores empresas tupiniquins, segundo a Exame Melhores e Maiores de 2011, faturaram R$ 2,6 trilhões em 2010. Zero vírgula oitenta e cinco porcento de qualquer coisa é esmola.  E o que aconteceria se tirássemos da conta Petrobras e Embraer?

Futuro

A única conclusão possível é que o país do futuro não se preocupa com o próprio futuro. No berço – nas escolas – não é ensinado a inovar e empreender. Na creche – nas empresas – não é motivado a criar. Adulto imaturo, vive de trocar o finito patrimônio por serviços, royalties e bugigangas de qualidade questionável. Insustentável sob qualquer ponto de vista.

Futuro – Final Alternativo

Sistemas, nações, organizações, governos, mercados e empresas são abstrações que, entre outras coisas, não têm peso na consciência nem sabem o que é remorso, arrependimento. O quanto você, eu e a Dona Carochinha estamos inovando? Quanto estamos investindo em aprendizagem, pesquisa e desenvolvimento? Como recebemos e incentivamos novas ideias?

 

Notas

  1. Claro que não me referi ao vitorioso Timão. Em outro ranking – o da FIFA, que mereceu mais destaque na mídia que o da inovação, a seleção canarinho aparece em 11º lugar! Há tempos não somos o país do futebol. E a mentira do jeitinho brasileiro cai pelas tabelas. Ainda bem que ainda somos os maiores vendedores de cerveja do mundo, né? De cerveja, chinelinhos e de um ou outro avião (em sentidos literal e figurado). Não por acaso figuramos no antepenúltimo lugar no critério “Exportação de Bens e Serviços”.
  2. Segundo o mesmo Global Innovation Index.
  3. Estes foram os números que, de pouco mais de um ano para cá, empresários gritaram e a mídia ecoou sem verificar (para variar). Tratariam exclusivamente do tamanho do rombo (vagas abertas e não preenchidas) no mercado TIC. Quando falaram em 800 mil vagas eu chorei: o país do samba passará a ser conhecido como a nação do telemarketing sem noção.
  4. Não me esqueci da provocação que deixei no artigo anterior. As respostas ainda aparecerão nesta pequena série mal acoplada.
  5. A foto do fantástico MacGyver Bar – que não fica em Pindorama nem vende cervejas da Ambev – foi tirada por Galdo Trouchky e disponibilizada via Flickr.

 

320 214 Paulo Vasconcellos
7 Comentários
  • Luís Felipe Braga

    E aí­ PV. Belo artigo! A minha opinião é que o nosso problema é relacionado ao Estado, não que a culpa seja somente deste ou daquele governo que não é suficientemente competente. O problema, acredito, é a cultura do Estado como provedor de todas as soluções. Sempre que temos um problema para resolver alguém inventa uma lei, uma regulamenTação ou uma proibição.

    O nosso Estado é paternalista, não premia o mérito, privilegia os setores mais organizados, sustenta castas de funcionários inatiingíveis, suga os recursos da iniciativa privada e entrega serviços de péssima qualidade.

    E isso tudo tem um fundo político. Muita gente “inteligente” acredita o Estado deva ser assim. Os esquerdistas de boteco acreditam que o Estado é ineficiente pois não espalhou os seus tentáculos o bastante. Este tipo de gente gosta mesmo de super estruturas onde podem passar a vida fazendo política com o dinheiro do povo.

    Mas concordo com você. não dá para ficar reclamando e colocando a culpa no outro. só que desanima tentar ser “empreendedor” e ser visto por alguns como um “capitalista” esperto que só pensa em enrolar os consumidores e sonegar impostos.

    Um abraço. E vamos que vamos.

    • Grande Braguinha! Quanto tempo!

      Cara, não aguento mais ouvir gente reclamando da ineficiência do tal Estado. Porque geralmente vem de gente que tem uma casa imensa para por em ordem. Olha a choradeira atual da “Indústria”, particularmente da FIESP. Meu, se os caras investem migalhas em P&D, como querem concorrer com a China ou com o Paraguai? Essa postura de apontar dedos sujos e aguardar por intervenções divinas é que puxa PIB e motivação para baixo. dá uma olhada na matéria de capa do caderno Mercado da Folha de hoje e em um artigo sobre a Indústria automobilística. Os caras não enxergam um trimestre na sua frente! Falam de altos estoques e pedem três meses para entregar um carro??

      Em outro artigo, Marco Regulatório da Silva, falo desse paternalismo e do nosso gosto por regras. não estarei aqui para ver mudanças significativas nesta cultura. Mas eu espero ver empresas e pessoas dando bons exemplos. É o tipo de mudança que só vai acontecer – se um dia acontecer – de baixo para cima.

      Sobre sermos vistos como “capitalistas selvagens e desonestos”, todos pagamos pelos erros de alguns (que não são poucos). Ossos do ofício. E vamos que vamos.

      Abração! Obrigado pelo comentário,

      PV

  • Concordo que a culpa não é mesmo do Estado, mas sim das pessoas que votam para formar o tal Estado.
    E não vai mudar. não vai, não adianta chorar, reclamar, etc… a única chance que vejo é se um dia os pais das crianças hoje com 3-4 anos acordarem, se olharem no espelho e refletirem “ei, meu filho pode mudar essa porcaria ai.” Mas, como muito bem observado, o que os futuros pais buscam é uma forma de mamar nas tetas do governo, nada mais.

    • Oi Edson,

      Acho generalizações perigosas (apesar de cometê-las com irritante frequência). E, apesar de concordar contigo, insisto que devemos olhar para o outro lado: para nós e nossas empresas. Porque o tema proposto é inovação, futuro.

      O governo já faz muito se não atrapalha. Quando gastarmos bem mais que esmolas em P&D, quando pararmos de bater no peito e dizer que inovamos – ou seja, quando deixarmos de contar mentiras, aí­ sim teremos razão e moral para reclamar. E nossas reclamações serão efetivas.

      Agradeço a participação. Abraços!

      Paulo Vasconcellos

  • Leandro Mendonça

    Hoje em dia mediocridade é luxo. Inovação é perda de tempo. A vanguarda da nossa Indústria ainda está tentando abandonar o jeitinho para alcançar o nível básico e esse movimento ainda vai demorar uns bons anos. Certamente nesse intervalo surgirão alguns pontos fora da curva, não mais que isso.

    Encontrar, atrair, desenvolver e manter profissionais ou parceiros de Negócios com níveis de competência minimamente aceitáveis é tarefa das mais ingratas. E mesmo quando se consegue tamanha proeza, esbarra-se nos limites dos consumidores, habituados a contratar soluções ruins e pouco dispostos a avaliar novas opções e correr maiores riscos. Combater todos esses fatores exige muita energia, energia essa que pode ser “melhor” empregada para explorar oportunidades imediatas em mercados pessimamente atendidos. Transformar algo péssimo em ruim tem bastado para a maioria dos Negócios que tenho observado.

    A boa notícia é que ainda somos o paí­s das oportunidades, tanto para quem inova quanto para quem simplesmente empreende. Estimular o empreendedorismo talvez seja o melhor caminho para um paí­s mais inovador.

    Abs!

    • Fala Leandro!

      Como sou besta e ingênuo, não consigo ver separação entre empreendedorismo e inovação. Se o cara tá lançando um negócio que não propõe nada de diferente, é melhor ficar quietinho em casa, comendo pipoca e assistindo TV.

      Mas eu entendi seu ponto: devemos estimular a criação de novos Negócios. Multiplicar por mil qualquer número atual. Porque é muito mais provável que a inovação brote daí­, e não dos mamutes que carregam (conformadas) um legado intratável.

      Pindorama tem um horizonte fantástico: o bônus demográfico, a crise sem fim do mundo desenvolvido etc. Desperdiçar este momento (conformados ao ruim, medíocre etc) é prova da mais absoluta burrice. Ainda estou otimista…

      Obrigado pelo comentário. Abraços!

      Paulo Vasconcellos

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